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COLUNA DO SCHUMACHER: A (IN)COMPETÊNCIA DO SETOR VINÍCOLA NACIONAL

04/11/2009

 




Blog de Werner Schumacher



03/11/2009


A (in)competência do setor vitivinícola nacional


 


Quando se sabe o que se deve fazer e não se faz, ou isto é por burrice, ou para defender os interesses de alguns.


 


Visão 2025 - O setor vitivinícola brasileiro investiu muito tempo e uma verdadeira fortuna para o desenvolvimento de um plano estratégico, que ficou conhecido como Visão 2025. Há mais de dois anos, pelo menos, este plano está engavetado, mas se continua a solicitar verbas do Fundovitis para o mesmo, o que faz lembrar os atos secretos do Senado.


O Visão 2025 nos mostrou o muito que se deveria fazer para tornar o setor competitivo globalmente e, preferentemente, no mercado interno, o quintal da nossa casa, já que as nossas possibilidades externas são limitadas. A análise “Swot” do setor bem demonstra isto. Há um grande hiato entre a teoria e a prática, mas um plano estratégico é uma formidável ferramenta de desenvolvimento econômico e social.


 


Pesquisa - Em Bento Gonçalves está localizado o Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho da Embrapa, é um dos mais belos centros e raros são aqueles que tem estrutura similar no mundo, mas este centro está ocioso porque o setor não entendeu ainda a importância da pesquisa para o seu desenvolvimento e pouco o procura para estabelecer parcerias visando a busca de soluções.


Isto é típico de países subdesenvolvidos com baixo nível educacional, mas o Brasil não é mais um país subdesenvolvido, mesmo que tenha algumas características como tal e o próprio desinteresse pela pesquisa é uma clara demonstração disto.


A cada tonelada de uva recebida por uma vinícola australiana, esta é obrigada a doar um dólar australiano para o seu instituto de pesquisa e o governo faz o mesmo, assim, eles tem todos os anos mais de dois milhões de dólares australianos para pesquisa e por isto produzem um dos melhores vinhos do mundo hoje.


Se adotássemos o mesmo critério, teríamos mais de um milhão de reais para pesquisa, isto pensando apenas no vinho, ou seja, sem computar a uva de mesa, mas aqui parece não haver problemas como na Austrália.


 


Formação Profissional - Também, em Bento Gonçalves, está localizado o Instituto Federal do Rio Grande do Sul, com curso técnico e superior de enologia e viticultura, inclusive, com especializações, mas igualmente é pouco utilizado pelo setor, justo aquele que forma os seus recursos humanos. Para não dizer que varredor é obrigado a ter 2º grau para trabalhar, por exemplo, na AMBEV, operador de empilhadeira sim, no entanto, aqui equipamentos muitas vezes mais caros que uma empilhadeira são operados por semi-analfabetos e assim por diante.


Em um mercado globalizado e competitivo como o que vivemos não se consegue sobreviver sem forte investimento em recursos humanos, a menos que este mercado esteja blindado a competitividade, o que não parece ser o nosso caso.


 


Agricultura Familiar - A produção de uvas na Serra Gaúcha se caracteriza pela agricultura familiar e por pequenas propriedades, sendo que em média cada família tem dois hectares de vinhedos e com esta área, seja com cabernet ou isabel, é impossível ter renda suficiente para sustentar uma família.


O desemprego no setor é invisível, isto é, a indústria não precisa demitir, pois mesmo com o avanço dos importados as vendas destas são suficientes para manter um quadro enxuto. Filhos de agricultores estão procurando emprego na cidade, pois a terra não é mais suficiente para o  ganha-pão da família, em outras palavras: o desemprego se dá no campo e, portanto, não visível aos olhos da economia local.


Não há um estudo sócio-econômico que viabilize estas propriedades, aliás, envelhecida, daí a enorme quantidade das que estão a venda e a médio prazo assistiremos provavelmente falta de uva no setor. Um setor que não se preocupa com a sua fonte de matéria-prima não demonstra ser muito competente.


 


Política Econômica (Tributação, Câmbio, etc.) - A carga tributária sobre o vinho brasileiro é uma das mais altas do mundo, senão a maior, gira em torno a 52%, enquanto nos principais países produtores de vinhos do mundo está entre 16 e 20%. Recente estudo aponta que a cotação do Real em relação ao dólar americano deveria ser, no mínimo, o dobro da atual cotação e isto determina o avanço dos importados. Os custos trabalhistas brasileiro e a burocracia instalada neste país são forte ônus para as nossas empresas. Tudo isto e mais um pouco forma aquilo que costumamos chamar de CUSTO BRASIL, que torna pouco competitiva a nossa indústria.


 


Controle Fiscal - Os males do setor parecem não se encontrar – entre outras - nas causas acima, pois eles são fruto da conseqüência do avanço dos importados, do descaminho ou contrabando, da sonegação e da falsificação de produtos. Portanto, eticamente, o “setor” vitivinicola brasileiro solicitou ao governo a adoção do Selo de Controle Fiscal para moralizar o mercado, vejam bem, o mercado.


 


Presidente Lula: Quando na história deste país (e do mundo) o mercado foi moral e ético?


 


A adoção do Selo de Controle Fiscal, entre outras burocracias que estão por vir, poderá resultar na quebra de muitos empreendimentos da agricultura familiar. Seguramente, mais de 500 das 750 (ou 1120) vinícolas do Estado são produtoras de uvas e vinhos, tudo isto porque o custo operacional do uso deste controle poderá chegar até mesmo ao valor do preço mínimo da uva. Vinho é produzido com uva ou Selo Fiscal. A multiplicação deste custo pela própria tributação no mercado, substituições tributárias e tudo mais, tornará o vinho selado pouco competitivo no mercado, abrindo mais ainda espaço para os “DENOREX” (sangria, coquetel, etc.).


 


A maioria dos produtores será penalizada em favor de poucos, não mais de 20 empresas, que realmente tem a maior fatia do mercado, mais de 80%. Isto é motivo de orgulho para qualquer economista neoliberal ver que em um país governado pelo Partido dos Trabalhadores as leis econômicas de mercado são as que valem, pois elas – “aparentemente” – favorecem 20.000 famílias.


 


Ledo engano e assim continuará enquanto a guerra for contra as conseqüências e não contra as causas que realmente provocam os problemas.



Escrito por Werner Schumacher às 18h33

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